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Como a quimioterapia age no corpo durante o tratamento do câncer

Como a quimioterapia age no corpo durante o tratamento do câncer?

Após compreender o que é quimioterapia e sua aplicação geral, é natural querer saber como funciona a quimioterapia no organismo. Neste artigo, vamos detalhar de forma simples o mecanismo de ação dos fármacos, descrever o ciclo de aplicação, apresentar as principais vias de administração e explicar como é feito o acompanhamento médico durante o tratamento. Ao final, você terá uma visão clara de como a quimioterapia age no corpo e o que esperar em cada etapa.

Sumário

Mecanismo de ação: destruição de células cancerígenas

1. Por que as células cancerígenas são alvo dos fármacos?
  • As células tumorais se dividem de forma acelerada e desorganizada.
  • A maioria dos quimioterápicos atua justamente bloqueando ou interrompendo etapas da multiplicação celular (o chamado ciclo celular).
2. Fases do ciclo celular e pontos de ataque
  • Fase G₁ (crescimento inicial): célula se prepara para sintetizar DNA.
  • Fase S (síntese de DNA): ocorre duplicação do material genético.
  • Fase G₂ (preparação para divisão): célula verifica se o DNA está íntegro antes da divisão.
  • Fase M (mitose): divisão propriamente dita da célula em duas novas células.
 

Cada grupo de fármacos age preferencialmente em uma dessas
fases. Por exemplo:

  • Alquilantes (ex.: ciclofosfamida): alteram a estrutura do DNA em qualquer fase, mas atingem com mais eficiência células em divisão rápida.
  • Antimetabólitos (ex.: 5-fluorouracil): competem com moléculas naturais que a célula precisa para sintetizar DNA (fase S).
  • Antimicrotúbulos (ex.: paclitaxel, vincristina): impedem a montagem dos microtúbulos no fuso mitótico (fase M), bloqueando a separação cromossômica.
3. Por que a quimioterapia também afeta células saudáveis?
  • Além de atingir células tumorais, os fármacos atingem células saudáveis de divisão rápida (ex.: medula óssea, mucosa bucal, epiderme de cabelo).
  • Por isso surgem efeitos colaterais como queda de cabelo, mucosite e redução de glóbulos.
4. Dose e frequência: equilíbrio entre eficácia e segurança
  • A dose de cada quimioterápico é calibrada considerando peso, altura, função renal e hepática, e tipo de tumor.
  • Seguir o ciclo de aplicação (próximo tópico) é fundamental para maximizar o efeito antitumoral e dar tempo para a recuperação das células saudáveis.

Ciclo de aplicação da quimioterapia

1. O que é um ciclo?
  • Um ciclo de quimioterapia corresponde a um período em que o fármaco é administrado seguido de um período de repouso.
  • Exemplo: “Ciclo a cada 21 dias” significa que, no dia 1, o paciente recebe a medicação; nos dias 2 a 21, ocorre descanso e recuperação; no dia 22, inicia o próximo ciclo.
2. Por que existem períodos de repouso?
  • Recuperação da medula óssea: células sanguíneas (glóbulos brancos, vermelhos e plaquetas) sofrem depleção após a quimioterapia.
  • Regeneração de tecidos que se renovam rapidamente: mucosa intestinal, células do cabelo, entre outras.
  • Sem esse intervalo, o risco de complicações graves (infecções, anemia severa, sangramentos) seria muito alto.
3. Duração e número de ciclos
  • Variam conforme o protocolo adotado para cada tipo de câncer.
  • Exemplos:
    • Câncer de mama HER2 negativo (estágio inicial): costuma-se fazer 4 a 6 ciclos de 21 dias cada, combinando dois ou mais fármacos.
    • Linfoma de Hodgkin: geralmente 6 a 8 ciclos de 14 a 21 dias, dependendo da resposta.
    • Câncer colorretal: protocolos que mesclam 5-fluorouracil com outros agentes por 2 em 2 semanas, por até 6 meses.

Formas de administração

A escolha da via de administração depende do tipo de medicamento, protocolo oncológico e condições do paciente. As principais são:

  1. Via intravenosa (IV)
    • Como funciona: o medicamento entra diretamente na veia, garantindo absorção total e rápida distribuição pelo organismo.
    • Cateteres utilizados:
      • Cateter periférico: ideal para uso curto (1 a 2 dias de quimioterapia). Em tratamentos prolongados, pode causar flebites e infiltrações.
      • Cateter totalmente implantável (Port-a-Cath): indicado para ciclos prolongados ou múltiplos.
  2. Via oral
    • Como funciona: comprimidos ou cápsulas são absorvidos no trato gastrointestinal e difundidos na corrente sanguínea.
    • Vantagens: maior comodidade (o paciente pode tomar em casa), evita punções venosas constantes.
    • Desvantagens: dose pode variar conforme absorção, e interações com alimentos ou outros remédios.
  3. Via subcutânea (SC)
    • Como funciona: injeção feita abaixo da pele, em áreas com boa vascularização (abdômen, coxa).
    • Uso: mais raro em quimioterapia, mas aplicado em alguns fármacos de suporte (por ex., fatores de crescimento hematopoiético).
  4. Via intramuscular (IM)
    • Observação: quase não utilizada para quimioterápicos devido à dor e absorção variável. É mais comum em vacinas de suporte ou medicamentos sutis. 

Acompanhamento médico e exames de controle

  1. Avaliações clínicas antes de cada ciclo
    • Exame físico: checar sinais vitais, peso, estado geral, mucosas e pele.
    • Avaliação de sintomas: náuseas, vômitos, fadiga, sangramentos, diarreia, entre outros.
  2. Exames laboratoriais obrigatórios
    • Hemograma completo: verifica contagem de glóbulos brancos (risco de infecção), hemoglobina (risco de anemia) e plaquetas (risco de sangramento).
    • Funções renal e hepática: creatinina, ureia, TGO, TGP e bilirrubinas garantem que os órgãos estão aptos a metabolizar e eliminar os fármacos.
    • Marcadores tumorais (quando aplicável): CA-125, CEA, PSA, entre outros, para avaliar resposta ao tratamento.
    • Eletrólitos e albumina: indicam estado nutricional e equilíbrio hidroeletrolítico.
  3. Exames de imagem para monitorar resposta
    • Tomografia computadorizada (TC) e ressonância magnética (RM): medem o tamanho do tumor antes, durante e após alguns ciclos.
    • PET-CT: avalia atividade metabólica do tumor e possíveis metástases.
  4. Ajuste de dose e suporte
    • Se o hemograma indicar neutropenia grave (contagem de glóbulos brancos muito baixa), o oncologista pode adiar o próximo ciclo ou reduzir a dose.
    • Uso de medicamentos de suporte:
      • Antieméticos para náuseas e vômitos.
      • Fatores de crescimento (G-CSF) para acelerar a recuperação da medula óssea.
      • Transfusão de hemácias ou plaquetas, se necessário.

Efeitos da quimioterapia no corpo

  1. Efeitos imediatos (durante e logo após a infusão)
    • Náuseas e vômitos: podem aparecer nas primeiras horas; controlados com medicamentos antieméticos.
    • Sensação de fadiga: cansaço intenso; recomenda-se repouso intercalado com atividades leves.
    • Alterações de pele e unhas: manchas, ressecamento ou sensibilidade aumentada.
  2. Efeitos de curto prazo (primeiras semanas do ciclo)
    • Queda de cabelo (alopecia): aparece geralmente 2 a 3 semanas após início de ciclos que utilizam antimitóticos.
    • Mucosite: úlceras na boca e garganta; uso de géis e bochechos específicos alivia desconforto.
    • Mielossupressão: queda de glóbulos brancos (risco de infecção), deplaquetopenia (risco de sangramento) e anemia (cansaço).
  3. Efeitos de médio prazo (após vários ciclos)
    • Alterações gastrointestinais: diarreia ou constipação; acompanhamento nutricional é fundamental.
    • Neuropatia periférica: sensação de formigamento ou dormência nas mãos e pés, comum em fármacos como a vincristina ou oxaliplatina.
    • Alterações renais ou hepáticas: dependendo da droga, é necessário monitorar creatinina e enzimas hepáticas.
  4. Efeitos de longo prazo (após término do tratamento)
    • Recuperação da medula: células sanguíneas tendem a se normalizar em semanas a poucos meses, mas em alguns casos há necessidade de suporte adicional.
    • Risco de cardiotoxicidade: fármacos como a doxorrubicina podem causar alterações cardíacas; acompanhamento cardiológico é recomendado em pacientes de alto risco.
    • Potencial infertilidade: aconselhamento prévio sobre preservação de gametas (esperma ou óvulos) pode ser indicado.
    • Risco de segundos tumores: raramente, o uso prolongado de alguns agentes alquilantes pode aumentar a chance de desenvolver outra neoplasia após anos.

Importância do acompanhamento multidisciplinar

  1. Oncologista
    • Coordena todo o protocolo, ajusta doses, decide sobre adiamentos e escolhe fármacos conforme resposta e tolerância.
  2. Enfermagem oncológica
    • Responsável pela administração segura dos quimioterápicos, orientação de cuidados domiciliares e monitoramento de reações imediatas.
  3. Nutricionista
    • Avalia estado nutricional e propõe dieta específica para minimizar perdas de peso, cansaço e proteger mucosas do trato digestivo.
  4. Psicólogo ou psico-oncologista
    • Auxilia no enfrentamento emocional do diagnóstico e dos efeitos colaterais, fortalecendo adesão ao tratamento com quimioterapia.
  5. Fisioterapeuta e terapeuta ocupacional
    • Indicam exercícios leves para combater a fadiga crônica, melhorar circulação e manter a força muscular.
  6. Farmacêutico hospitalar
    • Confere interações medicamentosas, orienta sobre hora e modo correto de tomar fármacos orais e cuidados com armazenamento.

Perguntas frequentes (FAQ)

Normalmente, no primeiro dia, há administração em ambiente hospitalar ou clínica especializada. Você passará várias horas em observação. Nos dias seguintes, é comum sentir leve mal-estar, um pouco de naúsea e cansaço.

Dependendo do tipo de câncer e fármaco, as primeiras avaliações de imagem podem ocorrer após 2 a 3 ciclos (ou seja, 6 a 9 semanas). Entretanto, sinais de melhora clínica (redução de dor, melhora do apetite) podem surgir antes.

Muitos pacientes conseguem manter atividades leves ou trabalho home office entre os ciclos, especialmente quando usam cateteres de longa permanência. No entanto, o grau de indisposição varia muito. Converse com sua equipe médica para orientações personalizadas.

  • Higiene rígida das mãos para evitar infecções (devido à possível baixa de células de defesa).
  • Alimentação leve e fracionada: evita picos de náusea e mantém aporte nutricional.
  • Evitar contato com pessoas com infecções respiratórias ou gripes.
  • Reportar imediatamente febre acima de 38 °C, sangramentos incomuns ou feridas que demoram a cicatrizar.

O tratamento com quimioterapia é complexo, pois envolve não apenas a escolha do fármaco, mas também entender como a quimioterapia age no corpo, manejando efeitos indesejados e ajustando doses com base em exames de acompanhamento. Saber que existem vias de administração — oral, intravenosa e subcutânea — e que cada paciente pode necessitar de um acesso vascular diferenciado ajuda a desmitificar o processo e diminuir a ansiedade.

Lembre-se de que o sucesso do tratamento depende de uma equipe multidisciplinar que acompanha todos os aspectos: clínicos, laboratoriais, nutricionais e emocionais. Com informações claras e apoio médico adequado, o paciente tem mais segurança e qualidade de vida durante o tratamento com quimioterapia.

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Foto de Ludmila Ramalho

Ludmila Ramalho

Head de Estratégia de Padronização e Novos Produtos